Qaundo me aproximei da sala onde estariam os membros do conselho, entrei mesmo sabendo que nem deveria ter ido até alí, fui mesmo só pra comprovar minha tolice. Viktoor estava sendo, educadamente, convidado a se retirar da cidade por uns tempos. Depois de "revelações" feitas por ele, eu sabia que passara da hora da gente se retirar da sala e, pra não ficar ainda mais atrasada, só dei uma olhada firme para Will que ele já sabia o que fazer. Viktoor saberia onde nos encontrar. Não precisaria de explicações e nem de ninguém pra me falar onde poderíamos ir...
Minha comemoração de 100 anos. Nesta época eu conhecia vários amigos de várias linhagens e famílias diferentes. Foi tarefa difícil conseguir conciliar todo numa noite e em um ambiente só. Não foi aqui em Chicago, foi em Londres, num casarão abandonado de uma amiga minha Loi [leia-se Luá, como no francês], uma Tremere bastante exótica das demais. Foi com ela que conseguí expandir bastante meus conhecimentos e habilidades. Com ela aprendí o vício da boa música, da boa leitura. Não a leitura de livros típicos e famosos. Leitura de obras de crianças e jovens, ou até idosos à beira da morte. Somente aqueles sem algum dote pra escrita, que na maioria das vezes escreviam sem muita concordância e com bastante erros gramaticais. Eram esses que forneciam maior conhecimento pois esses falavam com o papel e caneta, e falavam com a alma. Escreviam o que não falavam pra ninguém, nem em suas mais secretas confissões. As crianças principalmente. Elas descrevem belezas que não são vistas nem por nós, membros. Elas têm o que eu e Loi chamamos de fé verdadeira: acreditam no que nunca foi e nunca será comprovado verdade. Não digo de papai Noel, fada do dente e coisas do tipo, falo de felicidade,liberdade, paz, amor. Conceitos. Até hoje, só conceitos. As minha conversas com ela eram sempre muito boas e sempre me rendiam horas de diversão e risos. Como ela era professora de faculdade e dava aulas de Pedagogia Infantil, eu amava conversar com ela, era a mãe que nunca tive, e eu a filha que perdera. Era tempo de eu visitá-la...
-Will, acho bom sairmos e procurarmos diversão ao nosso modo. Aproveitarmos essa noite por completa. Nos embebedar de uma boa vitae e depois irmos para nossas respectivas casas, descansarmos. Amanhã devemos embarcar para Londres assim que o Sol nos deixar, e lá procurarmos conhecimentos à nossa maneira. Umas duas noites acho que já seriam sufucientes e teríamos que ir para outro lugar, de preferência, à sua escolha. Como Londres já vai ser o primeiro da escala, não podemos arriscar algum lugar que seja preferido ou casa de Viktoor, ficaria muito fácil pra nos encontrar.
-E será que Viktoor vai concordar em fazer o que eles mandam, tão facilmente?
-E será que ele tem outra escolha? Por mim, tudo bem se ele quiser arriscar e ficar aqui, mas pelo que eu conheço de anciões, é muito melhor irmos. E olha que não sou afeiçoada a mudanças, ainda mais repentinas...
-O que fará por agora?
-...Se não me engano, tem um belo teatro que irá começar daqui a algumas horinhas, logo no centro da cidade. Pela propaganda, parece que terá a Orquestra Sinfônica Estadual tocando como música de fundo. Excelente elenco, com excelente música... Depois ainda podemos convidar alguns mortais refinados para um jantar em minha casa. Que tal?
- ...Taxi? - diz Will, com extremo brilho nos olhos.
-Naaahh, vamos de carro, eu dirijo. A gente pega emprestado com alguém no caminho - e termino a frase com uma piscadela que explica tudo a Will.
No mesmo instante, saímos à procura de algum carro à altura. Não demorou muito pra Will encontrar uma bela BMW que estava acabando de ser deixada pelo seu aparente dono. Ele era bonito, aparentemente 40 anos, com um belo casaco e uma boina em seus cabelos levemente grisalhos. Eu, naquele momento já era uma versão ruiva dos olhos verdes vibrantes, com um vestido preto e longo, cabelos delicadamente presos em um arranjo que combinava com anéis e brincos, um colar que destacava a região dos seios e um suave enxarpe para cobrir os ombros do frio, me aproximei do dono do carro.
- Bela noite, não é mesmo?
- ...Claro! Não mais bela que você, é óbvio!
-Quanta gentileza! Fico até envergonhada. - havia tanto tempo que eu não utilizara este meu dom, que eu tinha ficado até com receio de usá-lo novamente, mas pelo visto, era como andar de bicicleta...
-Não fique, minha bela!
-Será que eu poderia abusar de sua bondade para experimentar algumas voltas em seu encantador carro? ..Claro que não chega próximo ao seu encanto, meu senhor...
-Não me chame de senhor, por favor. E quanto ao carro, fique a vontade! Me diga onde a tua beleza deseja ir que a levarei em instantes!
-Ah, eu te agradeço, querido! Não será preciso, eu mesma me guiarei até meu destino. Prometo trazer-lhe o carro em minutos.
-Não se preocupe! Fique à vontade, tem um telefone ao lado direito do volante, e se precisar me ligue apertando o botão azul. Eu a encontrarei onde quer que esteja, só pelo seu doce cheiro e pelas chamas de seus cabelos.
"Agora chega de babação e vamos embora, né?!" - eu pensei.
Peguei a chave do carro e já fui abrindo-o logo para chegarmos no teatro.
Lá haviam, belas pessoas, lindos carros, roupas, colares, pescoços... Eu não tinha motivo pra tanta sede, mas é que taxistas não fazem parte de meu cardápio favorito... Tudo de meu cardápio favorito encontrava-se alí, na minha frente. Oh vontade que dava de sair descontroladamente como um mosntro, em busca de sangue. Saudade das antigas chacinas do Sabbat, é a única coisa que eu sinto falta após ter me desligado. Pena que teríamos que escolher poucos daqueles...
O espetáculo foi excelente. É bom saber que ainda se fazem boa música em Chicago, ainda mais reunida à uma boa peça teatral. Will aconselhou que deveríamos nos separar para conseguirmos cada um, uma 'companhia', e estava certo. Ao fim do espetáculo, estava eu com um belo homem, e ele com uma bela mulher. A mulher, que na verdade era uma moça, aparentemente 20 e poucos aninhos, era similar à imagem que tinha de minha mãe: cabelos como os meus, olhos claros, rosto fino e corpo bem torneado. Ela vestia um vestido lilás longo e rodado, com sapatos prateados, da mesma cor de sua bolsa. Sua pele não era branca como a minha, era um tom bem suave, mas bronzeado. Não falo de minha pele atual, é claro, mas sim de minha pele quando mortal, que era branca mas nem tanto quanto agora. Mathew, meu companheiro, era alto, cabelos escuros longos, na altura dos ombros, olhos castanhos bem claros, quase amarelhos, tinha uma barba bem tratada e usava ternos e calças pretas, tradicionais.
Convidei todos à minha casa e claro, eles aceitaram.
Chegamos lá e cada casal se apossou de um quarto. Eu tinha bastante vinho estocado para essas ocasiões, e sempre tinha comida estocada também. Pedí a amável Dora, minha empregada, que preparasse um banquete pra dois e vinho para,supostamente, quatro.
Eu adorava me alimentar de mortais com muito vinho no sangue, ainda mais que após o jantar eu iria me descansar como há muito tempo não descansava. Mathew e Anna, estavam no ponto. Já haviam comido bem e bebido bastante. Já era a hora no nosso banquete. Após saciar-mos com um bom sangue, fomos dormir, cansados e já esperando que a próxima noite fosse bastate longa.
Um segundo antes de fechar meu belo abrigo, lembrei-me de pedir a Dora que ligasse para a agência aérea e comprasse 3 passagens para Londres para a próxima noite, o mais próximo das 7 da noite o possível... Após o fim destas palavras, já em minha forma e tamanho normal, dormí pensando em minha amiga Loi...