sábado, junho 06, 2009

Brasília, meu Brasil estrangeiro.

Após uma temporada conturbada na Europa, uma fuga espetacular da riviera francesa, e uma caçada de sangue em meu nome, cheguei ao Brasil. Confesso que as coisas por aqui são mais fáceis para mim. Tenho muitas histórias pra contar, e vou começar com a tragédia, como fazem os noticiários. Will e Lurya se foram. Não sei onde eles se encontram agora, mas provavelmente foram tragados pela caçada de sangue que se formou atrás de nós. Eu revelei minha identidade como porta voz da visão e poucos compreenderam o que quis dizer. Dos meus pensamentos surgiu um monstro que começou a devorar os membros do velho mundo. Existem seres que poucos creem, mas que existem. Quem desenvolve a visão pode vê-los, mas a maioria dos loucos que se dizem membros nem sequer respeitam a visão. Pobres tolos. A fera que saiu dos meus pesadelos mais profundos era feita de pura magia. Outra coisa que poucos acreditam. Pura criatividade, matéria prima dos sonhos, coisa que nos acerta direto na alma e que a maioria de nós nem pode ver. Por azar, ela saiu da minha cabeça fui o primeiro a ser sua vítima. Por sorte eu a via e pude me defender antes da morte final. Will e Lurya estavam comigo e, juntos, escapamos. Assim que a fera saiu pela janela do nosso quarto no hotel, não a vi mais. Ouvimos rumores sobre suas façanhas destruindo alguns anciões até ser domada por um dos que ouvem a magika do sangue.

Não vou me abster aos detalhes da vida na Europa. Passamos bons tempos e maus bocados fugidos. Fomos caçados pela confusão que causamos. De fato não fomos culpados pelo monstro que devorou os anciões, mas por termos devorado anciões nós mesmos. Grandes problemas e muita diversão. Os velhos achando que podiam mandar em nós só por serem descendentes diretos das linhagens puras. Porcos que não sabem mais do que estão falando. Há um grande refino em alguns dos principados ingleses e muita organização nos alemães, mas nada se compara aos franceses. Tão caóticos e propriamente charmosos, não muito hospitaleiros mas mesmo assim tão atraentes. No geral, tentam viver uma idade que já se foi em que as seitas não faziam sentido separadas, quando ainda não havia um forte poder independente. Bem longe disso, encontrei em Brasília, a verdadeira capital do Brasil, uma ordem tão hipócrita quanto a francesa, mas de uma hospitalidade imensurável. Will e Lurya, cada um a seu tempo, cada um em seu lugar, foram devorados pela ordem vampírica européia. Encantados cada um com seu lugar, ficaram para trás e foram engolidos pela nuvem de vampiros que nos perseguiam, suponho eu. Não tive mais notícias deles desde que fugi da Itália sob forte tempestade. Tive que me apressar para pegar um voo que faria escala na África e assim eu poderia viajar durante a noite.
Cheguei em Brasília sem querer. Fiquei encantado com a cidade quando vi as luzes de natal, a arquitetura moderna, a escola de Niemeyer, me apaixonei pelo pitoresco desse lugar. Agora, sozinho, começo a descobrir os encantos do Brasil. Dei um tempo nas minhas conexões pela visão. Percebi que isso é um dom que deve ser utilizado com sabedoria e estratégia, fui levado pela liberdade de expressão mascarada. Assim como os jornalistas se acham no direito de liberdade de imprensa, eu me achava exercendo meu direito. Mas, no fundo, somos todos dominados pelos poderosos acima de nós, e só falamos o que eles nos permitem dizer. Toda informação é mediada antes e depois de passar pelos meios de comunicação e é distorcida antes, durante e depois desse processo.
Acho que perdi um pouco o foco da minha visão sobre o mundo e sobre como escrevo estas palavras. Mas minhas aspirações de poder todas se foram. Agora crio raízes num lugar que talvez não seja minha moradia definitiva. Realmente gostei desse lugar. Mas ainda tenho uma busca a fazer. Vou ter que parar por aqui, vejo vultos pelas janelas redondas do aeroporto Juscelino Kubischek. Não posso me dar ao luxo de estragar tudo que fiz até agora. Minha comoção por Will e Lurya não caberia em palavras, por isso ainda tenho fé que eles continuem por aí. Ainda tenho como objetivo reecontrá-los. Bom, vou me despedir logo antes que minhas suspeitas se confirmem. Malditos infernalistas, seguindo meu cheiro como cães sarnentos desde a Europa até aqui. Só eles têm o dom de fazer tais coisas. Vou mostrar a eles o que aprendi com meus próprios pesadelos. Nem o inferno é tão aterrador quanto a imaginação de um visionário com séculos de experiência.

"E agora o fim está próximo
E então eu encaro a última cortina
Eu vivi uma vida completa
Eu viajei por cada e por todas as estradas
E mais, muito mais que isso, eu fiz isso do meu jeito". _Frank Sinatra